Raciocinar com base nos princípios da Fé

Unindo à fé o bom senso e o gosto pelo raciocínio, Dr. Plinio acostumou-se, desde menino, a considerar os problemas referentes à Igreja ou à doutrina católica de maneira a intuir a solução antes mesmo de esta se tornar explícita.

Tenho uma ideia vaga dos meus primeiros raciocínios. Nem sequer me lembro sobre que matéria versaram, mas me recordo bem de que, em certo momento, dei-me conta de algumas demonstrações lógicas feitas para mim. Posso imaginar que demonstrações incipientes devem ter sido: um dado, outro, tal outro; logo, conclusão.

Em certo momento, fiz a seguinte reflexão: “Curioso como isso funciona! E confere com o que estou vendo. Oh, que maravilha!” Lembro-me que literalmente fiquei encantado quando explicitei a existência do raciocínio e de um processo pelo qual podia jogar, utilizar e conhecer outras verdades que não conhecia. É natural, por ser o homem um animal racional.

Quando isso se tornou explícito para mim, tive um gosto de raciocinar fabuloso, proveniente de duas impressões. A primeira, a do horizonte que se alargava. A segunda, característica do homem, a do gosto pela própria destreza, por perceber em mim a força do ato de raciocinar, que me levava a exclamar: “Que bom, eu sou racional!”

Tenho a certeza de que isso se passa com todo mundo, e não o estou apresentando de nenhum modo como fato excepcional, nem como manifestação de talento ou de virtude maior do que de um outro. Entretanto, nem todos fazem a opção certa, nem dão atenção ao raciocínio.

A pista para o raciocínio é o bom senso

Quando comecei a prestar atenção no raciocínio e a ensaiar raciocínios, fiquei, como eu disse, encantado. Mas não podia deixar de ser que me perguntasse o seguinte: Quantas convicções tenho na alma que não foram raciocinadas! Serão verdadeiras? Porque, se se atinge a verdade por meio do raciocínio bem feito, a toda certeza deve preceder um raciocínio. Eu estou com a alma cheia de certezas; onde estão os raciocínios?

“Lembro-me que literalmente fiquei encantado quando explicitei a existência do raciocínio”
Plinio aos 2 anos de idade

Recordo-me literalmente disso, e de ter chegado à conclusão seguinte: Eu já tenho tantas certezas que, se fosse raciocinar tudo, passaria o resto de minha vida para confirmar o que já sei. Este modo de proceder parece muito lógico, mas tem qualquer coisa de quebrado. Emerge alguma coisa aí que eu distingo: vai contra o bom senso.

“Ah, então existe uma coisa chamada bom senso, a que o raciocínio nem sempre obedece! Cuidado com o raciocínio… Ele é magnífico, mas poderia ser comparado a um automóvel ou, menos prosaicamente, a cavalos que correm numa pista. Fora da pista, dá em desastre! A pista para o raciocínio é o bom senso. Há um embasamento qualquer na pessoa que, quando a lógica galopa e dá uma patada no bom senso, deve pôr freio na lógica. Não pode haver um conflito entre o raciocínio e o bom senso, mas, enquanto não for resolvido o conflito, fica valendo o bom senso. Raciocínio que dá patada no bom senso, não!”

O que é o bom senso? É uma pergunta que me pus.

Resposta: “Ainda não sei, mas trata-se de algo que existe em mim. Se aceitar qualquer canivetada do raciocínio nesse bom senso, eu sangro. Pelo contrário, sei que, se o raciocínio florescer na linha do bom senso, eu ando de acordo com a ordem e a harmonia”.

Entra aí a Igreja Católica.

Fé, bom senso, raciocínio

Meus pais me matricularam no Colégio São Luís,1 e ali comecei a ter aulas metódicas de Religião. Ademais, a propósito de várias matérias os padres tratavam desse tema, com uma lógica jesuítica incomparável. De onde eu ter a impressão de que encontrara não uma escola de lógica, mas a escola de lógica.

Porque eu os via raciocinar – e tinham todos a mesma lógica – e dizia de mim para comigo:Por mais maduro que eu seja de futuro e por mais que venha a estudar, tenho a certeza de que, mais lógica do que essa, não adquirirei. Ora, a lógica desses padres nunca contunde com o meu bom senso; pelo contrário, quando eles raciocinam eu sinto que meu bom senso se distende e se alegra.

“Por outro lado, a lógica deles dá gume à minha. Vendo-os raciocinar, eu de tal maneira sei impostar o espírito para raciocinar que se diria ser uma nova luz que entra em mim. O que é isso? Percebo que eles justificam a Fé Católica”.

Então há uma tripeça: Fé Católica, bom senso e lógica.

O raciocínio pode ser comparado a cavalos que correm numa pista, que é o bom senso: fora dela, dá em desastre!
Corrida de cavalos em Tampa (Estados Unidos)

Um orvalho descido do céu

Cada vez que eu raciocinava com base nos princípios da fé – tudo o que a Igreja ensina a respeito de Deus, de si mesma, de sua História; as narrações da História Sagrada e dos Evangelhos; os pontos de doutrina que me iam sendo transmitidos, como os Sacramentos –, sentia o meu bom senso muito mais do que alegrar-se. E pensava: Como meu bom senso se eleva! Esses princípios são como o orvalho descido do céu sobre a vegetação. Que coisa estupenda, não se poderia imaginar algo igual!”

Isso se passava em relação a tudo, mesmo os pontos que eu via os ateus de minha entourage atacarem mais. Por exemplo, sobre a Presença Real eles diziam:Como um homem pode caber num pedaço de pão? E um homem que morreu há dois mil anos… Pão é pão, e homem é homem! Eu não posso crer nisso. Sou um espírito forte”.

E eu raciocinava: Se alguém dissesse que é pão, eu afirmaria ser um louco. Nosso Senhor Jesus Cristo diz que é pão, eu exclamo: Ele é Deus! Tal é sua santidade, sua sabedoria! Não só eu, menino, mas nenhum homem inventaria uma pessoa como Nosso Senhor Jesus Cristo; Ele está acima de qualquer cogitação humana. Esse Homem não se inventa, não pode ser objeto da criação literária de ninguém. Ele é o Criador humanado. E daí vem tal poder: quando Ele diz ‘Este pão é a minha Carne’, é. E eu, em vez de dizer ‘louco’, dobro os joelhos e osculo o chão.

Este indivíduo está dizendo que é um espírito forte; ele é um imbecil! Sei bem de onde vem o ‘espírito forte’ dele. Bastaria que Deus o dispensasse – aliás, Deus nunca faria isso – da prática de dois Mandamentos que eu conheço, e ele acreditaria também; trata-se de um rebelde, não de um forte. Ele é ateu porque é revoltado. Não tenho nada de comum com ele!

Alegria de alma por entrever a solução

Eu pensava muito em tudo quanto se relaciona à Igreja, observava, analisava. Não se tratava tanto de leitura. Tenho lido bastante, mas nunca fui um homem principalmente leitor. Fui sempre muito observador e amigo de refletir; e, a propósito de minhas observações e reflexões, então lia.

E fui notando que o binômio raciocínio-bom senso, quando aplicado à fé, tinha um resultado curioso: muitas vezes, quando eu me punha um problema referente à Igreja ou à doutrina católica, antes de saber resolvê-lo já percebia qual era a solução.

Havia se formado em mim, pela união com a Igreja, um como que bom senso complementar e superior, que era o senso da coisa católica. De maneira que, antes mesmo de saber o que a Igreja ensinava e como ela resolvia tal problema moral, ou explicava tal movimento da História ou tal circunstância da vida, antes de fazer o raciocínio que juntasse uma ponta à outra, antes de procurar algum livro para fazer uma consulta, na grande maioria dos casos – não sempre – eu já entrevia a solução. E essa solução me trazia uma extraordinária alegria de alma.

Senso católico

Então nasceu normalmente em mim algo cuja definição vim a conhecer depois: o senso católico. É esse bom senso a propósito das coisas da Fé que voa na frente do raciocínio, o qual, reverente, percorre como um viandante com o seu bordão, na terra, o caminho que o pássaro fez voando no céu. O bom senso põe os vários elos, os diversos elementos para o raciocínio caminhar até o fim.

Dotado do senso católico e compreendendo que se tratava de um favor, de uma bondade de Nossa Senhora, eu caminhei rumo à constituição da minha mentalidade, como depois ela foi-se desdobrando ao longo da vida.

Tal posição tinha de trazer este resultado: à medida que eu conhecia e analisava a Igreja, ia me maravilhando cada vez mais com ela.

Não se pode ter inteira certeza sem a Fé Católica

Com quanta certeza eu falei do bom senso e do raciocínio! Mas percebo que todas essas certezas que possuo, eu não teria personalidade nem força para adquiri-las se não fosse a Fé.

Não se trata de uma Fé qualquer. A Santa Igreja Católica Apostólica Romana é única, e fora dela nenhuma outra merece o nome de Fé. Tendo a crença nessa infalibilidade, todos os tesouros se abrem para mim; perdendo-a, as minhas certezas amolecem, meu bom senso se gelatiniza e eu não sou nada.

Acabo de dizer que o homem, tomando os conhecimentos que tem pela Fé e conjugando-os com os que possui pela razão, pode, no inteiro respeito e no desenvolvimento do seu bom senso, formar um tesouro magnífico de certezas. Mas sem a graça de Deus ele não consegue isso. Ele pode ter certeza num ou noutro ponto – como um cientista que descobriu uma reação química –, mas seriam certezas fragmentárias. E pedaços de certeza não formam uma certeza, como cacos de vidros não constituem um vitral. A certeza pertence ao conjunto das verdades que dizem respeito ao homem, a Deus e ao universo. Isto é certeza!

É em função disso que as certezas científicas e outras se encaixam, se ordenam. Mas não se pode ter inteira nem adequada certeza sem a santa Fé Católica Apostólica Romana.

A fé alarga os horizontes, ordena o pensamento

É certo que a razão humana, sem recorrer à Revelação, encontra por si mesma muitas verdades que nesta também estão contidas, como, por exemplo, a unicidade de Deus ou a demonstração de que os Mandamentos do Decálogo são justos.

Mas, sem a graça de Deus, o homem não seria capaz de permanecer muito tempo com uma noção límpida sobre os dez Mandamentos nem seria capaz de praticá-los duravelmente, embora os pudesse conhecer.

O homem, conjugando os conhecimentos que tem pela Fé com os que possui pela razão, pode, no inteiro desenvolvimento do seu bom senso, formar um tesouro magnífico de certezas
Mirante da Pedra do Moleiro – Dolní Zálezly (República Checa)

São Paulo mostra que somos consortes da natureza divina (cf. Rm 8, 16-17); algo da própria vida de Deus habita em nós. Pela luz, pela força que nos vem da graça, a inteligência e a vontade podem crer, conhecer e praticar respectivamente o que devem. Com a graça, a inteligência se engrandece e passa a conhecer verdades que o homem jamais conheceria, nem mesmo antes do pecado original, se não fosse a Revelação.

A fonte da graça é a Igreja Católica, e a cúpula da Igreja Católica é o Papa, a infalibilidade pontifícia. Aqui temos a ordenação, o calor de alma com que nós, católicos, devemos viver. ◊

Extraído, com adaptações para
a linguagem escrita, de:
Conferência. São Paulo, 17/10/1981

 

Notas


1 Colégio dos padres jesuítas, em São Paulo.

 

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