Naquele acontecimento insólito, não é a estrela que determina o destino do Menino, mas o Menino que guia a estrela, predispondo os gentios a abrirem seus olhos para o Deus verdadeiro.

 

A representação do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo sempre foi um dos principais temas da arte sacra, bem como um rico instrumento de catequese sobre o mistério da Encarnação. Apesar de a tradição atribuir a São Francisco de Assis a criação do presépio, já nos primeiros séculos de nossa era os cristãos procuravam recordar através de expressões artísticas tão augusto momento. A pintura existente na catacumba de Santa Priscila, em Roma, considerada a mais antiga reprodução da natividade do Salvador, nos apresenta a Virgem Mãe, o Menino e São José.

Haverá, entretanto, algum fundamento bíblico para incluir os três Magos no presépio, onde figuram comumente como importantes monarcas, personagens exponenciais da Solenidade da Epifania do Senhor?

Quem eram os Magos?

A visita destes augustos peregrinos é assim relatada por São Mateus: “Tendo, pois, Jesus nascido em Belém de Judá, no tempo do rei Herodes, eis que Magos vieram do Oriente a Jerusalém. Perguntaram eles: ‘Onde está o Rei dos judeus que acaba de nascer? Vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-Lo’” (Mt 2, 1-2).

O termo magos, do grego μάγοι, se aplica neste caso aos sábios que se dedicavam ao estudo de astronomia e tinham por costume governar sua vida pelo curso dos astros. 1

São Mateus nada diz sobre a dignidade real dos Magos, mas diversos comentaristas, vendo na presença desses ilustres personagens o cumprimento das profecias do Antigo Testamento, os identificam com os soberanos dos quais nos fala o salmista: “Os reis de Társis e das ilhas Lhe trarão presentes, os reis da Arábia e de Sabá oferecer-Lhe-ão seus dons. Todos os reis se prostrarão perante Ele; todas as nações O servirão” (Sl 71, 10-11).

Adoração de toda a humanidade

Segundo São Rábano Mauro, 2 os Magos que vieram do Oriente para adorar o Menino Jesus são os filósofos dos caldeus, homens muito considerados em seu país, onde seus reis e príncipes ajustavam todos os seus atos à ciência desses homens.

Sobre a proveniência dos Magos, contudo, São Mateus apenas informa que “vieram do Oriente”. Além dos autores que localizam sua origem na Caldeia, há quem acredita serem eles oriundos da Índia, ou mesmo da Pérsia. Todavia, no decorrer dos séculos, a tradição ­cristã acabou por apresentá-los como representantes dos três continentes até então conhecidos: Europa, Ásia e África; assim, em seu sublime gesto de adoração, era toda a humanidade que ali se prostrava perante o Divino Infante recém-nascido.

Desta forma, a visita dos Magos, os quais não pertenciam ao povo eleito, pode ser entendida também como o ponto de encontro de duas sabedorias, a dos gentios com a da Religião verdadeira, pois “a sabedoria religiosa e filosófica é claramente uma força que põe os homens a caminho; em conclusão, é a sabedoria que conduz a Cristo”. 3

Simbolismo dos Magos: sua idade e seus dons

Muitos são os simbolismos associados pelo Cristianismo a estas nobres figuras. Um deles se baseia no fato de serem três, com idades distintas, retratando as três etapas da vida do homem, ou seja, a juventude, a idade madura e a ancianidade.

São Beda4 os nomeou e descreveu. Melquior, senex et canus, ancião de longa barba e espessa cabeleira brancas. Gaspar, iuvenis imberbis, rubicundus: jovem robusto e corado, ainda sem barba. Baltasar, fuscus, integre barbatus, homem na força da idade madura, de tez escura e barba cerrada. E a Cathechesis celtica, séculos IX e X, dá uma curiosa interpretação do significado espiritual dessas três idades: “A idade avançada do primeiro nos ensina a austeridade de caráter; a juventude do segundo nos incita a seguir os preceitos de Deus; a idade perfeita do terceiro nos aconselha conduzir nossa vida rumo à perfeição em todos os âmbitos”. 5

Fato indicativo de serem três os Reis Magos são os presentes por eles trazidos: ouro, incenso e mirra.

Cumpre lembrar aqui a profecia na qual Isaías faz referência aos dons oferecidos por estes sábios estrangeiros: “As nações se encaminharão à tua luz, e os reis, ao brilho de tua aurora. Serás invadida por uma multidão de camelos, pelos dromedários de Madiã e de Efá; virão todos de Sabá, trazendo ouro e incenso, e publicando os louvores do Senhor” (60, 3.6).

Guiados pela estrela, os Magos encontraram o Menino com ­Maria, sua Mãe, e, prostrando-se diante d’Ele, O adoraram. Comenta São Leão Magno que na carne eles adoraram o Verbo; na infância, a Sabedoria; na debilidade, a Onipotência. E acrescenta: “Para manifestar exteriormente o mistério que entendem, comprovam pelos dons aquilo que creem em seus corações: a Deus oferecem incenso; ao Homem, mirra, e ao Rei, ouro, sabendo que honram na unidade as naturezas divina e humana”. 6

Adoração dos Magos – Catedral de Notre-Dame, Paris

Uma extraordinária estrela

Segundo São Jerônimo, foi “para confusão dos judeus, para que eles conhecessem por meio de alguns gentios o nascimento de Cristo”, 7 que surgiu no Oriente a estrela que guiou os Magos.

É admirável contemplar como Deus respeita a idiossincrasia daqueles aos quais deseja fazer uma comunicação. Aos pastores, explica São Tomás, o nascimento do Salvador foi revelado “por meio dos Anjos, porque se tratava de judeus, entre os quais eram frequentes as aparições de Anjos; mas aos Magos, acostumados a contemplar os corpos celestes, foi manifestado pelo sinal da estrela”. 8

Muito se tem falado a respeito da origem desta estrela; para alguns autores, ela é um planeta; para outros, um cometa. Em todo caso, a despeito de qualquer controvérsia, fica patente seu caráter sobrenatural. Aquele que no princípio era o Verbo, sem poder ainda falar na Terra com os lábios, falou desde o céu aos Magos através de uma estrela…

Seu aparecimento foi, sem dúvida, um evento miraculoso, extraordinário, fora do curso natural dos corpos celestes. São João Crisóstomo é taxativo em afirmar que não se tratava de uma estrela comum, nem sequer de uma autêntica estrela, mas sim de “uma força invisível que tomou a aparência de estrela; isto se prova, sobretudo, pelo seu percurso”. 9 São Tomás, partindo deste pensamento, afirma ser “mais provável que se tratasse de uma estrela criada de novo, não no céu, mas na atmosfera próxima à Terra, e que se movia segundo a vontade de Deus”. 10

Luz que convida a imitá-la

Com efeito, naquele acontecimento insólito “a estrela não determina o destino do Menino, mas, ao contrário, o Menino guia a estrela”. 11 É a luz de Cristo que brilha nas trevas do paganismo, predispondo os Magos a abrirem seus olhos para o Deus verdadeiro. Estes aceitaram o convite e deixaram-se conduzir pela estrela que os levou a Belém para conhecer e adorar o Rei do Céu e da Terra.

Assim a bênção de Abraão se estendeu aos gentios, em Cristo ­Jesus (cf. Gal 3, 14), e “o Senhor fez conhecer a sua salvação. Manifestou sua justiça à face dos povos” (Sl 97, 2).

A partir daquele momento os astros se ofuscaram para deixar refulgir a luz do Deus feito Homem, nascido de uma Virgem, por obra do Espírito Santo. Luz que ainda quer brilhar em nosso mundo paganizado pelo relativismo e pela indiferença religiosa, iluminando nossas consciências e conclamando-nos a adorar o Menino Jesus, com Maria Santíssima, São José e os Magos, a fim de que Ele seja realmente o Rei de nossos corações.

A isto somos chamados nesta Epifania, pois a docilidade da estrela, afirma São Leão Magno, “nos convida a imitar sua obediência e a nos tornarmos também, na medida de nossas possibilidades, os servidores desta graça que chama todos os homens a Cristo. Qualquer um que vive piedosa e castamente na Igreja, que saboreia as coisas do alto e não as da Terra (cf. Col 3, 2), é, de certo modo, semelhante a esta luz celeste. Enquanto conserva em si mesmo o resplendor de uma vida santa, mostra a muitos, como uma estrela, o caminho que conduz a Deus”. 12 

 

Notas

1 Cf. MALDONADO, SJ, Juan de. Comentarios a los Cuatro Evangelios. Evangelio de San Mateo. Madrid: BAC, 1950, v.I, p.143.
2 Cf. SÃO RÁBANO MAURO, apud SÃO TOMÁS DE AQUINO. Catena Aurea. In Matthæum, c.II, v.1-2.
3 RATZINGER, Joseph. L’infanzia di Gesù. Città del Vaticano-Milano: LEV; Rizzoli, 2012, p.109-110.
4 Cf. SÃO BEDA. Excerptiones Patrum, Collectanea, Flores ex diversis, Quæstiones et Parabolæ: ML 94, 541.
5 CATHECHESIS CELTICA, apud EDADES DE LA VIDA. In: LE GOFF, Jacques; SCHMITT, Jean-Claude (Ed.). Diccionario razonado del Occidente medieval. Madrid: Akal, 2003, p.244.
6 SÃO LEÃO MAGNO. Sobre la Epifanía de Nuestro Señor Jesucristo. Hom.I, n.2. In: Homilías sobre el Año Litúrgico. Madrid: BAC, 1969, p.124.
7 SÃO JERÔNIMO. Comentario a Mateo. L.I (1,1-10, 42), c.2, n.12-13. In: Obras Completas. Comentario a Mateo y otros escritos. Madrid: BAC, 2002, v.II, p.27.
8 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. III, q.36, a.5.
9 SÃO JOÃO CRISÓSTOMO. Homilía VI, n.2. In: Obras. Homilías sobre el Evangelio de San Mateo (1-45). Madrid: BAC, 1955, v.I, p.106.
10 SÃO TOMÁS DE AQUINO, Suma Teológica, op. cit., a.7.
11 RATZINGER, op. cit., p.119.
12 SÃO LEÃO MAGNO, op. cit., Hom.III, n.5, p.133.

 

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