Estudo da doutrina católica: opção ou dever?

Nesta vida sempre temos algo novo para aprender sobre a doutrina católica. Acima das preocupações diárias, nossa atenção e nosso coração devem estar aplicados em abeberar-se nela.

Durante séculos, no tempo em que não existiam os radares e demais aparelhos sofisticados hoje disponíveis, a navegação a vela teve os astros como principal ponto de referência. O piloto deveria se orientar pela posição das estrelas para manter o rumo do navio. Por isso, não podia alguém tomar o timão e atravessar mares e oceanos – à mercê do sopro dos ventos, que muitas vezes eram contrários – se antes não fizesse um bom estudo de astronomia.

Da mesma forma, há uma exigência fundamental em qualquer responsabilidade que alguém venha a desempenhar na sociedade. Um médico, por exemplo, tem obrigação de saber como se desenvolvem as enfermidades, como atuam os vírus, quais são os remédios adequados para a cura das doenças, e inclusive precisa estar a par das descobertas de novas substâncias para resolver os eventuais males que apareçam. Se relaxar neste ponto, ficará desatualizado e pode vir a agir contra os deveres de seu ofício.

Também um advogado que não se interessa pelo estudo do Direito e não procura a cada dia se informar a respeito das leis promulgadas ou modificadas, não estará apto para defender as causas que lhe caibam e deixará de ser um profissional competente.

Obrigação moral de conhecermos mais a Deus

Ora, muito mais importante que o compromisso assumido com a profissão ou função, como se passa com a Medicina, a Advocacia ou a Marinha, são os deveres para com Deus.

Todos nós começamos a existir no momento em que fomos concebidos, iniciando-se o processo de gestação no claustro materno. Contudo, se nossos pais deram origem à parte vital, sabemos que a concepção humana não se opera apenas nesse âmbito meramente natural, mas conta com o concurso de Deus, que cria a alma, cada uma diferente das demais, e a infunde no corpo nesse instante.

Estabelece-se assim uma dívida que nos põe na contingência de conhecer cada vez mais aquele Ser que nos criou, nos redimiu e ainda nos sustenta e nos ajuda a cada passo! Ele pode nos dar saúde, vida e felicidade, além de todas as graças de que precisamos!

“Lendo a Bíblia”, por Henriette Browne – Coleção particular

Mas, infelizmente, mesmo sendo pessoas batizadas e que se aproximam dos Sacramentos – sobretudo que assistem à Missa e recebem a Comunhão –; mesmo sabendo que Nosso Senhor veio à terra com o objetivo de nos salvar e acreditando que Jesus é o Redentor do mundo, que tirou os pecados da humanidade, muitas vezes nos falta conhecer mais a fundo quem é Ele!

É obrigação moral empenharmo-nos em penetrar passo a passo nas maravilhas que envolvem os principais mistérios da nossa Fé

É, portanto, uma obrigação moral empenharmo-nos em penetrar passo a passo nas maravilhas que envolvem os principais mistérios da nossa Fé. E como a Igreja está sempre se enriquecendo com panoramas e explicitações inéditos, cabe nos aprofundarmos a cada momento nessa compreensão que, aliás, nunca será completa, por dizer respeito a um Ser infinito.

Mesmo se vivêssemos um bilhão de anos, estaríamos constantemente aprendendo, e a própria eternidade será um contínuo descobrir de novos aspectos de Deus. Por isso, acima das preocupações comuns da vida, nossa atenção e nosso coração devem estar aplicados em abeberar-se na doutrina católica e procurar entender bem as leis que regem o relacionamento nosso para com o Criador e do Criador para conosco, a fim de voltarmos Àquele do qual saímos. Isso faz parte da santidade.

O exemplo dos Santos

Os Santos se empenham em crescer no conhecimento da graça e do mundo sobrenatural, para conviver com Deus e ensiná-lo a outros

Os Santos são aqueles cuja primordial inquietação consiste em saber mais a respeito da graça e do mundo sobrenatural, e em ter uma noção forte e substanciosa da familiaridade existente entre nós e Deus, para vivê-la com mais profundidade. Esse é o eixo do pensamento de todo homem que almeja a perfeição.

Santo Odilon de Cluny, por exemplo, que viveu na Idade Média, via-se constrangido a fazer longas viagens, nas quais se deslocava a cavalo. Dir-se-ia que ele empregaria o tempo livre durante aqueles percursos em contemplar os panoramas e meditar; porém, apesar das incomodidades próprias a uma cavalgada – sobretudo numa época em que não existiam livros de bolso –, ele costumava ir lendo os escritos dos autores clássicos, no intuito de censurar o que não tivesse serventia para a Religião Católica e aproveitar tudo o que fosse útil para ensinar aos outros. E por vezes, se aparecia algum texto especialmente interessante, ele se esforçava por decorá-lo.

Pouco depois encontramos o grande São Tomás de Aquino, que foi enviado aos cinco anos de idade ao mosteiro beneditino de Monte Cassino. Trata-se de um lugar privilegiado, quer no que tange à localização – pois se situa sobre um monte imponente, grandioso e altaneiro, dominando as comarcas em torno –, quer pela bênção com que a virtude praticada por São Bento marcou aquela região.

A família dos condes de Aquino tinha se estabelecido nas proximidades, como senhores feudais. Naquele tempo, tal era a fama da Ordem Beneditina que as famílias nobres consideravam uma ótima carreira se um de seus filhos viesse a se tornar abade.

O menino, que manifestava desde a infância um profundo pendor piedoso e intelectual, já era um prodígio… Andando no mosteiro de um lado para outro, parava os monges e perguntava: “Quem é Deus?” Os religiosos respondiam: “Deus é um Ser eterno”, “Deus é o Ser onipotente”.

E ele, guardando esses dados, mais tarde veio a ser o extraordinário varão que escreveu 147 volumosas obras, entre as quais a famosa Suma Teológica, explicitando como ninguém até então os conhecimentos da doutrina católica.

Assim, facilmente concluímos que a vida de São Tomás girou em torno deste único ponto: quem é Deus?

Já no século XX, o Papa São Pio X costumava lecionar o catecismo toda semana aos meninos que fariam a Primeira Comunhão. Ele afirmava, porém, necessitar de duas horas de estudo prévio para dar uma boa aula. É, aliás, a recomendação aos párocos e catequistas contida em sua Encíclica Acerbo nimis: preparar-se com estudo e séria meditação.1

São Tomás de Aquino ensinando, por Andrea de Bonaiuto – Basílica de Santa Maria Novella, Florença (Itália)

Por fim, se analisarmos com lupa a obra de Dr. Plinio, perceberemos que no seu cerne está essa procura por saber quem é Deus e qual deve ser o nosso relacionamento para com Ele. Por isso, sempre que podia reservava algum período do dia para ler. E quando, já nos últimos anos de vida, não mais conseguia fazê-lo porque suas vistas estavam enfraquecidas, pedia para alguns de seus filhos gravarem a leitura do texto do livro, a fim de ouvi-la.

Grave falta no descuido do ensino da doutrina

Entretanto, às vezes acontece de pessoas encarregadas da cura de almas não se ocuparem com a educação religiosa daqueles a quem dirigem e até, sob pretexto de não os assustar, silenciarem verdades de Fé como, por exemplo, a noção de pecado e a existência do inferno.

Espantei-me certa vez ao ler no célebre Catecismo Maior, elaborado por São Pio X, uma cominação muito forte, enunciada com toda a precisão: “É necessário aprender a doutrina ensinada por Jesus Cristo, e cometem falta grave aqueles que se descuidam de o fazer”.2

Aqueles que são responsáveis por outras almas têm a obrigação de ensiná-las a doutrina cristã, sendo culpados diante de Deus se negligenciam esse dever

E logo no parágrafo seguinte há esta afirmação não menos categórica: “Os pais e patrões são obrigados a procurar que seus filhos e dependentes aprendam a doutrina cristã; e são culpados diante de Deus se desprezarem esta obrigação”.3

Portanto, se incorre em pecado o patrão que na sua indústria ou empresa não se preocupa em dar instrução católica a seus funcionários, quanto maior é a responsabilidade daqueles que, enquanto superiores religiosos e pastores, não se dedicam a explicar a doutrina a seus subordinados e consciente e voluntariamente relaxam em sua formação moral! Assim, pela negligência de alguns, um maior número de almas se perde…

Mons. João ministra uma aula de Catecismo em março de 2002

Lembremo-nos do episódio narrado por Madre Mariana de Jesus Torres, uma das fundadoras da Ordem Concepcionista em Quito, Equador. Como sói acontecer com os fundadores, aos quais Deus costuma revelar os acontecimentos futuros a propósito de sua obra, ela teve uma visão mística na qual contemplou, em meio aos tormentos eternos do inferno, muitas freiras de seu convento que em vida haviam exercido o cargo de mestras de noviças. Todas haviam cometido um único pecado mortal: descuidaram sua obrigação de dar a devida formação às subalternas.4

Benefícios que há em aprofundá-la

Ora, também o oposto é verdadeiro: todo batizado que se esforça a cada dia em progredir na leitura e na compreensão da doutrina católica, adquire como que um “verniz” na alma, facilmente perceptível em sinais exteriores por um observador atento. Ademais, o ensino dessa doutrina nos ajuda na prática da virtude e, enquanto obra de misericórdia espiritual prescrita pela Igreja, pode ser considerado um sacramental, mediante o qual se transmite a graça.

Contudo, o estudo da Teologia nunca pode ser independente das demais matérias que formam o “universo” da Igreja, restringindo-se tão somente a um aspecto específico. É indispensável ter como fundo de quadro uma visão de conjunto, de maneira a captarmos melhor as partes.

Ao conhecimento dos princípios e das especulações variadas e cheias de hipóteses ainda não resolvidas, deve-se aliar o amor pelos Sacramentos, a análise da Exegese e da História, o conhecimento da Liturgia na sua perfeição. Tudo se coordena num colossal edifício, inteiramente monolítico, que é a Igreja, de cujo influxo sobrenatural provém a distribuição das graças.

Como ensiná-la com proveito?

Surge aqui uma pergunta: como ministrar com proveito um curso de doutrina católica?

Nos primeiros tempos do Cristianismo, aquele que acreditava na Santíssima Trindade e nos demais artigos do Credo em pouco tempo era aceito às águas batismais e tornava-se membro de Cristo. Hoje em dia, com respeito à preparação para o Batismo, a Primeira Comunhão e a Crisma, a catequese deve ser séria, mas não convém retardar por anos a admissão de uma pessoa no seio da Igreja. Portanto, discorridas e explicadas as principais verdades da Fé, é conveniente encaminhar logo o catecúmeno para dar os passos necessários à recepção dos Sacramentos.

Mas, quando se trata de dar uma formação sólida, o estudo deve durar até a hora da morte. E quem ensina, por mais que já saiba a doutrina católica, precisa fazer um esforço anterior para conhecer bem a matéria, mediante leitura assídua.

Não se trata, portanto, de criar uma doutrina nova, mas de tomar o que está no Evangelho e transmitir de maneira muito clara, viva e atraente, tornando o tema agradável. Cada um poderá fazer uso dos recursos e dons recebidos de Deus, ora sendo minucioso nas descrições, ora se adaptando às apetências dos alunos para aplicar àquele núcleo concreto o que foi lido em tese, ora combatendo a indolência dos ouvintes e estimulando-os, de modo que cada um dê sua contribuição ao explicar o que aprendeu.

Mostrar ao mundo a verdadeira face da Igreja

Há, entretanto, um ponto essencial nessa formação, sobre o qual nunca será suficiente insistir: além do conhecimento que deve ser transmitido, é indispensável apresentar não só uma doutrina, mas também um tipo humano, um estilo de vida, uma forma de ser. Assim ordenou o Anjo do Senhor aos Apóstolos: “Ide falar ao povo, no Templo, sobre tudo o que se refere a este modo de viver” (At 5, 20).

Mons. João durante uma homilia em abril de 2007

Infelizmente as gerações atuais pouco se interessam em estudar a doutrina da Santa Igreja e é raro ver alguém com um livro deste teor em mãos. Pelo contrário, ao considerar a situação da humanidade em nossos dias, fica-se com o coração partido por constatar a existência de um verdadeiro complot da imprensa internacional para desonrar e desfigurar nossa Mãe.

Num mundo que busca desfigurar a fisionomia da Igreja, somos convocados a mostrar a verdadeira face de nossa Mãe, santa, digna e imortal

Nessa circunstância, a Providência nos chama para a missão supremamente bela e honrosa de mostrar ao mundo a verdadeira face da Igreja, em toda a sua imortalidade, dignidade e santidade.

Por isso devemos ter por objetivo a formação global do homem, com vistas a constituir modelos que possam dar à sociedade a noção verdadeira do Decálogo, do amor a Deus, do que é ser católico apostólico romano e de onde se encontra a solução para os problemas dos dias atuais.

Peçamos a Nossa Senhora, em nossas orações, graças muito especiais para que haja um autêntico entusiasmo de coração – e não só de inteligência – pela aprendizagem da doutrina católica, e que esse estudo, feito com maestria, habilidade e arte, traga como benefício a transformação das mentalidades, de modo que a terra se aproxime cada vez mais do Céu! 

Excertos de exposições orais proferidas
entre os anos de 2000 e 2007

 

Notas


1 Cf. SÃO PIO X. Acerbo nimis: AAS 37 (1904-1905),W 624-625.

2 CATECISMO MAIOR DE SÃO PIO X. Rio de Janeiro: Permanência, 2018, p.27.

3 Idem, ibidem.

4 Cf. PEREIRA, OFM, Manuel Sousa. Vida admirable de la Madre Mariana de Jesús Torres y Berriochoa. Quito: Fundación Jesús de la Misericordia, 2008, t.II, p.98-99.

 

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Do mesmo autor

Artigos relacionados

Redes sociais

1,644,769FãsCurtir
125,191SeguidoresSeguir
9,530SeguidoresSeguir
558,475InscritosInscrever