Se morremos com Cristo, viveremos com Ele

A morte para o pecado significa nova vida em Cristo pela caridade. Quando amamos, então vivemos.

28 de junho de 2026 – XIII Domingo do Tempo Comum
(em Portugal)

Imortalidade: eis o sonho do ser humano desde a queda original… De fato, “pelo pecado a morte entrou no mundo” (Rm 5, 12). Mas como restaurar a vida? Paradoxalmente, com a morte, como adverte Nosso Senhor no Evangelho deste domingo: “Quem procura conservar a sua vida, vai perdê-la. E quem perde sua vida por causa de Mim, vai encontrá-la” (Mt 10, 39). São Paulo é igualmente taxativo: “Se, pois, morremos com Cristo, cremos que também viveremos com Ele” (Rm 6, 8). Eis o divino mistério: só se ganha a vida, quando se a perde.

São Tomás de Aquino, seguindo a Tradição, comenta que tal morte consiste na participação na Morte de Cristo pelo Batismo.1 Quando se realiza esse Sacramento por imersão, o catecúmeno é submergido por três vezes, para representar o tríduo da Morte do Redentor. Por essa razão, a Igreja Católica costuma batizar os catecúmenos durante a Vigília Pascal, ao término dos dias do sepultamento de Jesus. O batizado “morre” para viver. Como os Sacramentos da Nova Lei realizam o que significam, o Batismo realmente produz a morte do pecado.

Mas a morte para o pecado também significa nova vida em Cristo pela caridade. Por meio da graça, há uma restauração do Paraíso, pois o justo é verdadeiramente “nova criatura” (II Cor 5, 17). Quando amamos, então deveras vivemos, pois a vida de nossa alma é o amor.2

No Evangelho, Nosso Senhor acautela: “Quem ama seu pai ou sua mãe mais que a Mim, não é digno de Mim” (Mt 10, 37). E logo acrescenta:Quem não toma a sua cruz e não Me segue, não é digno de Mim” (Mt 10, 38). Com essas palavras, deixa claro que, sob o regime da graça, é preciso cumprir o Primeiro Mandamento de modo ainda mais perfeito; trata-se de um amor incondicional a Deus sobre tudo, até mesmo sobre a nossa vida e sobre aqueles que vivem em nossa casa.

Destarte, explica o Aquinate que nosso amor a Deus implica também um ódio implacável ao pecado, porque oposto a Ele. Por essa razão os pecadores, “segundo a natureza, devem ser amados pela caridade. Mas, a sua culpa é contrária a Deus e um obstáculo para a bem-aventurança. Assim, segundo a culpa que os opõe a Deus, eles merecem ser odiados, mesmo que sejam pai, mãe ou parente, conforme o Evangelho de Lucas. Devemos, pois, odiar os pecadores, enquanto tais, e amá-los, enquanto são homens capazes da bem-aventurança. E isso é verdadeiramente amá-los pela caridade, por causa de Deus”.3

Por conseguinte, quando nosso amor se purifica do pecado, levando-nos a odiar o mal sem reservas, nossa alma se abre para o verdadeiro amor que, conduzido pelo Espírito Santo, permite-nos amar o próximo como a nós mesmos, fazendo assim morrer o homem velho e nascer o homem novo (cf. Rm 6, 6).

Esse amor desconhece a morte: persevera até a bem-aventurança no Paraíso Celeste. Por ele restauramos nossa imortalidade pois, como escreve o Apóstolo, “a caridade jamais acabará” (I Cor 13, 8). 

 

Notas


1 Cf. SÃO TOMÁS DE AQUINO. Super Epistolam ad Romanos, c.VI, lect.1, n.474.

2 Cf. SÃO FRANCISCO DE SALES. Tratado do amor de Deus. L.VII, c.7.

3 SÃO TOMÁS DE AQUINO. Suma Teológica. II-II, q.25, a.6.

 

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